Senhor Presidente da República,
Senhor Primeiro‑Ministro e demais Membros do Governo,
Senhoras e Senhores Presidentes dos Tribunais Superiores,
Senhor Presidente António Ramalho Eanes,
Senhor Antigo Primeiro-Ministro Pedro Santana Lopes,
Autoridades Civis, Militares e Religiosas,
Senhoras e Senhores Embaixadores,
Ilustres Convidadas e Convidados,
Senhoras e Senhores Deputados,
Caras e Caros Portugueses,
50 anos depois, ainda é estranho ouvirmos dizer que esta data divide.
É estranho ouvir dizer que a data é fraturante.
Que se trata de uma apropriação.
É estranho ouvir discursos que falam de abril em novembro. E de novembro em abril.
Evocar o 25 de novembro é evocar quem lutou pela democracia que hoje temos.
É lembrar que não devemos dar a democracia por adquirida.
É ensinar que a democracia liberal é, e continuará a ser, o único sistema que permite espaço para quem propõe sessões solenes.
Para quem se opõe a sessões solenes.
E até mesmo para quem se recusa a estar presente em sessões solenes.
As críticas e as cadeiras vazias neste Plenário são o testemunho vivo do importante lugar desta data na História.
É por causa do 25 de novembro que as críticas existem, sem serem caladas.
É por causa do 25 de novembro que as cadeiras vazias podem, amanhã, ser novamente ocupadas.
Dispenso, por isso, os exercícios de comparação de datas.
Sou de abril. Sou de novembro. Sou, hoje e sempre, da democracia representativa.
Porque abril abriu a porta da liberdade, e novembro garantiu que essa liberdade tivesse chão firme para caminhar.
Senhor Presidente da República,
Senhoras e Senhores Deputados,
Convidei para esta Sessão alunos de duas escolas que visitei este ano.
A Escola Básica Ferreira de Castro, em Mem Martins, e o Liceu Francês Charles Lepierre, em Lisboa.
Duas escolas muito diferentes. E, em tudo, muito iguais.
Convidei-os, não para terem uma aula de História. Nem para assistirem a um debate ideológico.
Convidei-os, porque nesta Casa decide-se o futuro. Decidem-se os próximos 50 anos.
É sobre isso, sobre o futuro, que hoje quero falar. Em especial, para a geração que terá a responsabilidade de construir esse futuro.
O mundo, como o conhecem, o país, como o conhecem, como o veem na televisão ou nesta Câmara, está prestes a mudar.
Uma mudança que se sente em cada esquina, em cada rosto. Em cada cimeira. Em cada discurso.
E surgirá mais depressa do que qualquer um de nós pode prever.
Este novo ciclo vai chegar-nos sem manifestos, nem pré-avisos. Sem tempo para livros brancos.
Porque
“a vida", nas palavras de um conhecido filósofo,
“é aquilo que acontece enquanto estamos ocupados a fazer planos".
Senhor Presidente da República,
Senhoras e Senhores Deputados,
O ambiente está mais pesado. Mais incerto.
E tenho reparado que a maior parte das pessoas que fala do futuro às novas gerações tem uma atitude pesarosa. Pessimista.
Invariavelmente, com muitas certezas.
Dizem que a esta geração é pior do que as anteriores. Mais qualificada, mas menos capaz. Menos respeitosa, mais polarizada.
Diziam o mesmo da minha geração.
Dizem, também, que o mundo está condenado.
Se não for pela emergência climática, é pela substituição populacional.
Se não for pelo fim do comércio livre, é pela corrida ao armamento.
Se não for pela inteligência artificial, é pelo colapso das democracias ocidentais.
E o que tem isto a ver com a data que hoje celebramos? Tudo.
Novembro, e abril, explicam que o futuro não é uma condenação que temos de aceitar, resignados.
O futuro não é um castigo, nem um pesadelo.
O futuro tem os seus riscos. As suas ameaças. Claro.
Mas representa, sobretudo, uma imensa oportunidade.
Porque o mundo que aí vem vai pôr
os contadores a zero. Vai trazer um novo início.
Cabe às novas gerações agarrá-lo.
Falo daqueles jargões, que tantas vezes se ouve e que vale a pena decifrar.
Transição energética. Inteligência artificial. Automação. E um país cada vez mais intercultural e cosmopolita.
Falo, também, de um momento único.
Único para as empresas, para a economia e para as pessoas.
E, na soma de cada um de nós, dos mais velhos aos mais novos, único para o nosso país.
Senhor Presidente da República,
Senhoras e Senhores Deputados,
A tecnologia digitalizou o elevador social.
No novo tempo que vamos viver, o elevador social vai funcionar, sem pedir permissão, ou decretos, a este Parlamento.
E isto tem consequências práticas para as novas gerações.
Não há herança que vos valha, nem condição que vos condene.
Nenhum de vós está obrigado a viver como nasceu.
E o que tem isto a ver com a data que hoje celebramos? Tudo.
Porque, 50 anos depois, estamos em abril outra vez.
Só é preciso que acreditem que é possível chegar a novembro.
Só é preciso que
sejam melhores do que nós.
As novas gerações não estão condenadas a viver no mundo que alguém construiu. Terão espaço, e meios, para fazer o próprio caminho.
Sejam melhores do que nós!
Não se deixem aprisionar em trincheiras ideológicas, ou semânticas.
Não se percam em discussões técnicas. Nem à procura de culpados.
Discutam os propósitos. O futuro.
Preocupem-se menos com inevitabilidades e previsões, e mais com as oportunidades.
Não se percam no interesse pessoal. No egoísmo. Porque não há verdadeira felicidade que não seja vivida em comum.
Amem o vosso país, participem e sirvam-no. Porque a pátria não é um acidente de nascimento, é uma comunidade de destino.
Não se detenham na inveja. Elevem-se para ver o todo. Capazes de reconhecer qualidades nos adversários.
Sejam melhores do que nós!
Não aceitem comprar o ressentimento dos outros. As frustrações dos outros.
Porque as responsabilidades não se atribuem, abraçam-se.
As desculpas não se dão, evitam-se.
E, quando achamos que a culpa é dos outros, é porque nós próprios não fizemos o suficiente.
Senhor Presidente da República,
Senhoras e Senhores Deputados,
Neste Parlamento, não vamos conseguir travar a mudança que aí vem.
Nem devemos querer fazê-lo!
Não podemos parar o vento com as mãos. Mas, neste país, sempre fomos bons a navegar à bolina.
Aproveitar ventos contrários, para chegar onde queríamos chegar. Dominar a força da tempestade, para que o barco não se desvie da rota.
É essa a arte, é esse o engenho, que este tempo nos exige. Que estes visitantes nos exigem.
A arte de fazer política. O engenho de sonhar o futuro.
Se não o fizermos; se não soubermos esquecer, por um instante, o telejornal de hoje, e pensar no mundo daqui a dez anos, estaremos a ser tão reacionários como aqueles que, em 1974, não perceberam que o tempo já tinha avançado sem eles.
Ou preparamos a mudança, ou somos engolidos por ela.
Essa é a escolha que temos pela frente.
Aceitar o princípio de que nada, neste mundo, é eterno. Mas de que é nosso dever deixar aos outros, instrumentos, recursos e um país melhor.
Que é nossa responsabilidade, enquanto políticos e decisores, garantir que esta geração é melhor do que a nossa.
Senhor Presidente da República,
Senhor Primeiro-Ministro,
Senhoras e Senhores Membros do Governo,
Senhoras e Senhores Deputados,
Sejamos melhores. Por eles!
Disse.